quinta-feira, 25 de novembro de 2010

PARACETAMOL – acetaminofeno (TYLENOL, SARIDON, ETC) COMO INTERFERENTE QUÍMICO DA FUNÇÃO BIOQUÍMICA HEPÁTICA.

É muito comum nas dosagens bioquímicas de enzimas hepáticas, ocorrerem alterações discretas. Clinicamente podem ser interpretadas como alterações “normais” e despreocupantes. Para o laboratório, ainda que seja comum entender estas alterações, é importante obter todas as informações possíveis sobre a utilização de fármacos pelo paciente, para que o patologista esteja alicerçado sobre a situação do paciente e possa orientar o clínico com todos os detalhes, quando oportuno, mas, ainda com maior grau de importância, compreender, quando o paciente apresentar resultados alterados, a razão desta alteração. Naturalmente, quando perguntado ao paciente se o mesmo faz uso de alguma medicação, a resposta geralmente pode ser “não”, mesmo que seja apenas um analgésico à base de paracetamol. A pergunta deve adequadamente ser enfatizada para que haja exteriorização da informação de forma sincera pelo paciente, considerando o fato de alguns esconderem informações que julgam comprometê-los. O paracetamol é um composto importante e produz alterações significativas, no início assintomáticas, mas a longo prazo, desastrosas. O paracetamol, acetaminofeno ou fenacetina (Tylenol, Saridon) é um fármaco muito utilizado cotidianamente como analgésico e antitérmico. Entretanto, por se tratar de um fármaco “popular” seu uso é indiscriminado, que com frequente utilização pode levar o paciente a desenvolver certa tolerância ao composto. Assim, o aumento da dose nas administrações se torna rotineiro, considerando que a meia vida plasmática é relativamente longa podendo promover graves danos hepáticos caracterizados pelo acúmulo de enzimas, proteínas e outras substâncias que de forma eficaz interferem na homeostasia do órgão. Superdosagem (15 g) de paracetamol é fatal. Níveis aumentados de ALT, FALC, GGT, TP, Albumina e Bilirrubina total podem ocasionar necrose hepática centrilobular e necrose tubular renal aguda. O paracetamol pode potencializar a ação da warfarina sódica, dado o fato de haver interferências no tempo de protrombina e função plaquetária. Pode ocorrer aumento da glicemia plasmática que pode ser potencializado quando houver associação aos níveis de ACTH, corticosteróides e epinefrina aumentados. Anemia hemolítica e metemoglobinemia são ocorrências muito raras, porém, não descartadas. A bilirrubina pode aumentar até 10 vezes mais do que seu valor basal.



Tabela 1. Mostra as principais alterações enzimáticas que provocam lesão hepática e conduzem à necrose hepática.


Metabolismo do paracetamol
O paracetamol é o metabólito ativo da fenacetina ou acetaminofeno. Seu mecanismo de ação consiste em, fracamente inibir a COX-1 e COX-2 em tecidos periféricos. Desprovido de efeitos anti-inflamatórios parece que recentes evidências sugerem que haja inibição de uma terceira enzima, a COX-3 no SNC. A farmacocinética implica em leve ligação às proteínas plasmáticas. Metabolizado parcialmente pelo sistema microssomal hepático é convertido em sulfato e glicuronídeos de paracetamol, inativos. O metabólito hepatotóxico é a N-acetil-p-benzoquinona.


Figura 1. Vias metabólicas do Acetaminofeno (AC) ou paracetamol.


Figura 2. Estrutura química do paracetamol.


Figura 3. Relação de toxicidade hepática pelo paracetamol em relação ao tempo. 24 horas após administrado, a probabilidade de hepatotoxicidade é reduzida. Quando os níveis de paracetamol estão entre 50 e 100 ug/ml, o potencial danoso situa na faixa crítica, aumentando a probabilidade de lesão.

Referências


 - STEVENS & LOWE. Patologia, 2ª edição, Manole, 273-304, 2002.
 - GOODMAN & GILMAN. As bases farmacológicas da terapêutica, McGraw-Hill, 517-550, 2005.
 - FURST, DE.; ULRICH, RW.; Fármacos anti-inflamatórios não esteróides, fármacos antireumáticos modificadores da doença, analgésicos não opióides e fármacos usados no tratamento da gota. In: KATZUNG. Farmacologia básica e clínica, 10ª edição, Lange-McGraw-Hill, 515-538, 2007.