terça-feira, 31 de agosto de 2010

INTERPRETAÇÃO CLÍNICA DAS VARIAÇÕES SÉRICAS DA ALBUMINA

ALBUMINA

Clinicamente interpretada, a condição que apresenta variações dos níveis desta proteína pode ser sinônimo de uma resposta inflamatória não específica ou de lesão tecidual, ou doença renal e hepática grave. Vale ressaltar que pacientes hospitalizados, geralmente apresentam níveis reduzidos de albumina, seja por problemas de diluição por contínua administração de fluidos intravenosos, seja por perdas na urina, fluido ascítico ou trato gastrointestinal ou outros distúrbios. Não obstante, a albumina exerce também, um importante reflexo sobre as concentrações iônicas de Ca2+ e Mg2+. Uma vez que, encontram-se níveis reduzidos de albumina, o comprometimento nas concentrações iônicas destes íons é certo.
Caso os níveis desta proteína se tornem elevados, teremos uma condição de hiperalbuminemia, como por exemplo, na desidratação, onde a volemia está diminuída e a razão volume/albumina fica diminuída ou a razão albumina/volume fica aumentada, na carcinomatose metastática, febre reumática, esteatorréia, lúpus eritematoso sistêmico, meningite, miastenia, meloma múltiplo, nefrose, neoplasias, osteomielite, pneumonia, trumatismo, tuberculose, úlcera péptica, uremia, vômito e hemoconcentração. Uma das proteínas plasmáticas mais importante que temos, a albumina, tem como função precípua, manter a pressão coloidosmótica entre o espaço intravascular e o líquido intersticial. Esta função é importantemente determinante, juntamente com a pressão hidrostática, em manter o volume entre compartimentos vascular e intersticial. Na verdade, o conteúdo protéico total é o determinante da pressão oncótica ou coloidosmótica, mas, dentre todas as proteínas, a albumina é a que apresenta maiores níveis plasmáticos. Caso haja diminuição no conteúdo de albumina plasmática, por consequência, gera-se reflexamente, aumento da pressão hidrostática vascular, e isto pode pode promover o deslocamento de líquidos do vaso para o interstício, o que chama-se edema. Entre outas funções da albumina, pode-se destacar que muitas substâncias devem ser levadas por várias partes do organismo, assim carrear outras substâncias, hormônios e drogas pela circulação, com marcante presença em 60% do conteúdo protéico no plasma humano, é outra importante função desta proteína. 
Os valores obtidos por eletroforese expressos em g/dl para albumina estão compreendidos dentro da faixa 3,5–5,0. Nas aferições bioquímicas de albumina sérica realizadas por espectrofotometria, os valores expressos em g/dl são: Recém nascidos: 2,8-5,0; Homens: 3,5-4,5; Mulheres: 3,7-5,3; Acima de 60 anos: 3,4-4,8.


HIPERALBUMINEMIA E HIPOALBUMINEMIA



Na inflamação, na redução da síntese hepática, na ingestão inadequada de proteínas, nas queimaduras ocorre situação inversa, onde os níveis de albumina estão diminuídos, a hipoalbuminemia, mas pode ter seus níveis diminuídos por outras razões, como na doença hepática ou doença renal grave e nas enteropatias perdedoras de proteínas. Condições como edema e ascite são resultados das variações nos níveis desta proteína, que ora diminuídos, emergem ao aparecimento destas condições.


Alterações que orientam e/ou podem estar associadas à hipoalbuminemia.



  • Linfocitopenia – presente em estado de desnutrição – atrofia órgãos linfóides;Teor de uréia sérica – reflete grau de ingestão protéica – avaliada na desnutrição;Elevações da proteína C-reativa - inflamação;Proteinúria acima de 3 g/dl – doença renal – síndrome nefrótica – eliminação exacerbada de albumina;

  • Provas da função hepática – doença hepática – cirrose – incapacidade de síntese de albumina;

  • Provas qualitativas e quantitativas de gordura fecal – perda extravascular – enteropatia perdedora de proteínas;

  • Depuração de α-1 antitripsina – má absorção - enteropatia perdedora de proteínas;

  • Eletroforese sérica – detecção de hiper γ-globulinemia – relacionada com doença hepática crônica, inflamação - valores reduzidos estão relacionados com síndromes perdedoras de proteínas;

 Reflexos Sistêmicos da Hipoalbuminemia


  • Edema facial: tumefação das parótidas e icterícia conjuntival;

  • Tegumento: perda de gordura subcutânea, pele áspera, edemas periféricos, cabelo fino, angiomas, eritema palmar, icterícia;

  • Cardiovascular: bradicardia, hipotensão, cardiomegalia;

  • Respiratório: diminuição da expansão respiratóriapor infusão pleural e debilidade dos músculos intercostais; 

  • Gastrointestinal: hepatoesplenomegalia, ascite;Muscular: perda de massa muscular, atrofia músculos interósseos das mãos;

  • Neurológica: encefalopatia, asterixis;

  • Genitourinário: atrofia testicular;

  • Endócrino: ginecomastia, hipotermia, tiromegalia.
Estas condições apresentadas, são condições que em muita das vezes estão associadas ao distúrbio da albumina. Isto requer interpretar que não é uma regra afirmar um diagnóstico quando um distúrbio da albumina apontar para um dos fatores associados. É necessário que o diagnóstico clínico laboratorial esteja equivalente com a clínica médica e, se necessário, por confirmações de outras avaliações. Entre as doenças citadas, a doença hepática crônica e a doença renal são as mais importantes, além da desidratação e queimaduras.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


Vê-se que a importância da interpretação dos valores plasmáticos da albumina reside em múltiplas significações, considerando a importância e funções exercidas por esta proteína. Além de sua constituição e funções biológicas, sua importância biofísica demonstra ser componente primordial na manutenção homeostásica, seja circulatória, linfática, seja renal. Como marcador de doenças importantes, pode-se inferir que os níveis de albumina são parâmetros importantes no diagnóstico clínico laboratorial. Uma vez presente na urina, a albumina indica estabelecimento de doença renal, isto é, considerando a proporção plasmática de albumina à presente na urina, pode ser que hipoalbuminemia esteja sendo reflexo de albuminúria por síndrome nefrótica. Ao passo que hipoalbuminemia não acompanhada de albuminúria pode ser atribuído à doença hepática, como a cirrose, ou até à esteatorréia ou enteropatia perdedora de proteínas.


BIBLIOGRAFIA


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