quinta-feira, 1 de abril de 2010

USO, HÁBITO, ABUSO, DEPENDÊNCIA DE DROGAS - PARTE I - ASPECTOS BIOQUÍMICOS, FISIOLÓGICOS E FARMACOLÓGICOS.

Neste tema, será tratado um assunto de importância relevante no meio social e que afeta atualmente todas as classes sociais. O abuso de drogas. De forma geral, considera-se como droga, toda substância que possui a capacidade de produzir um efeito farmacológico sobre o estado de equilíbrio normal ou homeostasia do organismo de forma a alterá-lo com intensidade ativando ou inibindo um sistema, órgão, células. O abuso de drogas é atribuído ao uso concomitante, indiscriminado de substâncias lícitas e/ou ilícitas. Por natureza fisiológica, o organismo geralmente adquire ao longo do tempo certa tolerância às várias substâncias que entram em contato, inibindo uma possível reação contrária que leve este organismo a um estado de deterioração temporária ou permanente. O fato é que, segundo os historiadores, desde a sua antiguidade, nas suas raízes da história, o homem adquiriu o hábito de utilizar substâncias que lhe propiciassem prazer, sensação de bem estar e muitas vezes de forma intensa. Dentre estas drogas, as mais conhecidas são a morfina, heroína, álcool, barbitúricos, alucinógenos, maconha e agora, os derivados mais recentes como cocaína, crack e extasy. Algumas drogas podem causar hábito, outras vício, dependência e toxicomania. O hábito se caracteriza pelo uso frequente de uma substância, sem contudo, que haja prejuízo à sociedade ou danos importantes para o próprio indivíduo. Neste caso, pode-se exemplificar citando algumas substâncias que até fazem parte da vida cotidiana de muitos indivíduos: Cafeína - em sua forma de bebidas cafeinadas (café, chás, coca-cola) e em sua forma medicamentosa. Neste caso, é inadequado aplicar o termo vício. Fala-se de vício ao se constatar o grau de comprometimento do indivíduo  e sua profundidade com determinada substância. A profundidade com que ocorre a associação droga-indivíduo pode determinar se é um vício, se é uma dependência ou se é uma toxicomania. Há uma tendência de utilizar e até substituir o termo vício pelo termo dependência. Não é a lógica correta. Neste caso, o termo dependência tem como objetivo mostrar a qual substância o indivíduo está viciado (p.e. vício do indivíduo - morfina. Equivale dizer que este indivíduo tem como vício a dependência de morfina). Segundo a Sociedade Americana de Psiquiatria (1987), Jafe (1990) as definições dos critérios para caracterizar um vício ficam estabelecidas quando três ou mais dos seguintes critérios estão presentes no indivíduo: (1) uso da droga com maior frequência e em quantidades mais elevadas do que o pretendido; (2) insucesso nos esforços para abandonar ou reduzir o uso; (3) longo tempo despendido para adquirir, usar a droga ou recuperar-se de seur efeitos; (4) intoxicação frequente ou sintomas de abstinência; (5) abandono das atividades sociais ou ocupacionais em decorrência do uso da droga; (6) uso contínuo, apesar dos prejuízos psicológicos ou físicos; (7) acentuada tolerância; (8) uso frequente da droga para aliviar os sintomas da crise de abstinência.
Existem diversas relações que, em qualquer que seja o âmbito que questione este assunto, devem ser consideradas, independente se a esfera for médica, científica, social, religiosa ou legal.

     1 - Relação dependência física e vício
Embora haja dependência física e esta esteja sendo um fator preponderante que instiga o uso continuado de uma susbstância, no sentido de que o usuário procure evitar o desconforto ou o perigo da crise de abstinância, isto não é, incontestavelmente, determinante do vício. Fato este é a utilização de fármacos neurolépticos que causam dependência física, sem contudo, induzir abuso ou vício.

     2 - Relação dependência psíquica e vício
Contrapondo conceitualmente à primeira relação, esta parece ser aquela que verdadeiramente determina o vício. Há uma satisfação de certas necessidades ou ambições do indivíduo e isto o leva à utilização frequente. Todavia, sob aspecto psíquico está bem demonstrado que os arcabouços da personalidade e psíquica do usuário têm grande influência na instalação do vício.

As drogas que causam dependência geralmente e tendenciosamente têm efeitos proeminentes sobre psique de um indivíduo, causando sensações consideradas por alguns como agradáveis (euforia, bem estar). Frequêntemente, a disforia, ansiedade, medo, náuseas, vômitos são sensações que podem ocorrer com iniciantes, todavia, sem abandonar seu uso.
    
     Psicoestimulantes - cocaína, anfetamina e análogos (anfetamina, dexanfetamina, metanfetamina, fenmetrazina), cafeína;
     
      Depressores do SNC - Álcool etílico, hipnóticos (hipnóticos barbitúricos - pentobarbital, secobarbital), hipnóticos não barbitúricos (nitrazepan), ansiolíticos (diazepan, flurazepam, lorazepam), analgésicos opióides (ópio e seus derivados morfínicos e heroínicos), não opiáceos (petidina, metadona);
     
      Drogas que atuam na percepção - canabinóides (maconha, marijuana, haxixe), alucinógenos (LSD-25, mescalina, psilocibina, harmina), nicotina (tabaco, fumo), gases inalantes e solventes.

Psicoestimulantes
    
      Cocaína - é um alcalóide extraído de plantas do gênero "Erythroxylon" cujas espécies são mais de 200 conhecidas, todavia, somente algumas possuem a cocaína em quantidades apreciáveis. Entre as ações da cocaína estão: anestesia local causando concomitante vasoconstrição pela ação simpaticomimética. Devido ser encontrada sob a forma de cloridrato, é perfeitamente absorvível pela mucosa nasal. Seu uso crônico pode ocasionar necrose e perfuração do septo nasal. Quando utilizada pela via endovenosa, alcança de forma extremamente rápida o pico de efeito e o tempo de duração deste efeito é significativamen curto, contudo, mais intenso.  A via farmacodinâmica é caracterizada pela atuação no SNC, reduzindo a recaptação de dopamina nas terminaçõe simpáticas por ligarem-se à proteínas transportadoras. Esta ação permite ao neurotransmissor maior intensidade de estímulo ao seu receptor em neurônios simpáticos, além atuar em regiões comportamentais.
    
      Anfetaminas - frequentemente prescritas para tratamento de obesidade como redutor do apetite. A farmacodinâmica desta classe é causar no SNC aumento na liberação de dopamina de síntese recente, e aumentam a liberação de outros neurotransmissores, além de inibirem a recaptação pela terminação nervosa. Com muita lógica, isto explica seus efeitos tóxicos. Sendo de atuação simpaticomimética, causam efeitos marcantes sobre o aparelho cardiovascular (hipertensão arterial, taquiarritmias).
     
      Cafeína - como uma metilxantina psicoestimulante causador de hábito, seu efeito é considerado fisiológico que em muitos casos o indivíduo não percebe. É sabido que doses acima de 600 mg podem causar sinais perceptíveis de confusão mental e indução de erros em tarefas intelectuais, agitação, nervosismo, sensação de angústia e até delírio tipo anfetamínico. Farmacodinamicamente, a ação da cafeína é atuar como antagonista de receptor A1/A2 e aumentar os níveis intracelulares de cAMP por inibição da fosfodiesterase, com isto, várias proteínas de ações enzimáticas são ativadas e promovem maior excitação celular no SNC.

Depressoras do SNC
    
      Hipnóticos -sedativos  -  podem causar dependência. Suas ações são: potencializam a ação inibidora neuronal mediada pelo GABA. Isto promove diminuição da atividade psíquica e psicomotora.
    
      Maconha - tendo como metabólito ativo o 1-delta-9-tetrahidrocanabinol os canabinóides atuam de forma geral na inibição do feedback´da transmissão sináptica por inibir a AC pela proteína Gi/0, ativação dos receptores CB1 e promoção dos estados de inibição psicomotora.

Bibliografia

RANG & DALE Pharmacology - 6th. Ed. Churchill Livingstone Elsevier. 200, 248-251, 619-637, 766, 2008.
RAMOS, WPB.; RAMOS, AO. In: Penildon Silva, Farmacologia - 7ª Ed. Guanabara Koogan, 204-212, 2006.
JAFE, JH. Drugs addiction and drug abuse. In Goodman & Gilman's. The Pharmaceutical Basis of Therapeutics. 8th. Ed. Pergamon Perss, 552-573, 1990.


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